Finalizando o meu 3º ano do curso segui em direcção à Holanda para 10 meses de Erasmus (4º ano) na cidade com maior taxa de utilização de bicicleta da Europa - Groningen - uma cidade Universtitária. Fui para a Holanda, atraído pela cultura em torno deste meio de transporte. Chegando lá, apercebi-me que teria de percorrer diariamente 25 minutos em cada sentido para fazer o percurso casa-universidade, isto em dias de bom tempo, o que por lá é bastante raro. Em dias de chuva vento ou neve, não se viam menos bicicletas na rua, apenas o tempo de deslocação era superior, cerca de 35 minuntos em cada sentido, e refira-se também o estado encharcado em que alunos e professores chegavam às salas de aulas.
Por muitas razões o regresso a Portugal foi triste, enfadonho, stressante, no entanto, já que não podia mudar a envolvente, mudei-me a mim. Nos primeiros meses continuei a utilizar a antiga bicicleta montanha de costas curvadas, subi o celim, comprei um assento novo, mas não, não dava, era demasiado desconfortável para as deslocações que eu queria fazer em Lisboa. Acabei por comprar a bicicleta de marca portuguesa com 6 mudanças presente na foto.
Encontrei nesta bicicleta uma boa forma de intrepertar a cidade, viver a cidade, torná-la mais pequena, mais humana, com mais interacções sociais e principalmente a forma de combater o estilo de vida depressivo que se têm em Lisboa.
Por estar a estagiar fora de Lisboa, o uso da bicicleta foi, durante 5 meses, principalmente "pós laboral", para relaxar, de Telheiras ao Bairro Alto, voltando de metro ao fim da noite, ou mesmo, caso o metro já se encontrasse fechado, voltando de bicicleta. Recordo uma noite em que após um concerto de 4ªfeira na discoteca lux, e após o metro já estar fechado, regressei a casa em 35 minutos, com o dinamo ligado, para dar luz, e aumentando a dificuldade. Apercebi-me então de quanto Lisboa era pequena, pois esse era precisamente o tempo que eu demarava nos dias de vento e chuva no norte da holanda, só para chegar á universidade e numa bicicleta sem mudanças.
As montanhas da ignorância são mais íngremes que qualquer colina de Lisboa. O sentido de bem comum entre os portugueses, prinicipalmente de Lisboa, é reduzido. E a forma como vivemos a cidade é egoísta e desastrada. Esta é a minha visão, apesar de adorar Lisboa, a Lisboa histórica, das ruas pequenas, dos estendais pendurados...
Pode ser demasiado romântica esta visão, mas sem querer acabar com os carros, espero apenas que um dia possa existir mais harmonia entre os diversos tipos de locomoção nesta cidade.
Bem hajam.
António Cruz